Começando finalmente os assuntos de física, resolvi escrever um pouco sobre ciência em si. É uma palavra muito comum hoje em dia, amplamente usada, mas nem sempre foi assim. Então, reflito sobre duas perguntas: O que é ciência? Qual sua origem?

Muitas pessoas definem a ciência como um “corpo de conhecimento”, ou o conhecimento propriamente dito. Mas o termo ciência não exprime exatamente essa idéia. A História nos mostra em muitos episódios que um conhecimento de uma civilização, quando para de ser desenvolvido, deixa de ter um caráter científico. Os conhecimentos de uma época podem ser os absurdos de uma outra e são substituídos por novos. Muitas civilizações antigas basearam seus conhecimentos em histórias, que mais tarde passaram a ser mitos, daí surgiram as mitologias. Mas a partir de mitos que surgiram os primeiros pensamentos científicos, na busca por explicações plausíveis sobre a realidade.

Mas ao mesmo tempo em que conhecimentos do passado podem vir a ser absurdos no futuro, são esses absurdos que levam à novas explicações mais bem elaboradas. Os cientistas, ou homens que buscam o saber, utilizam informações de pesquisadores de tempos atrás para desenvolverem seus novos raciocínios. E isso se torna frequente na história da humanidade. Foram muitos erros e acertos de muitos pensadores do passado, assim como pensamentos de hoje podem ser descartados amanhã, para dar lugar a novas teorias mais bem formuladas. E assim a ciência vai se revelando. Exemplo mais fácil dessa idéia é um bebê, que em suas primeiras observações começa a distinguir as coisas e o comportamento das pessoas ao seu redor, mas não consegue discernir de imediato o que pode lhe fazer bem mal. A partir de erros cometidos por ela, o conhecimento em sua mente vai sendo formado a partir de novas descobertas.

Uma das necessidades que mais motivaram a humanidade à produzir conhecimentos foi a indagação do existir. É natural de todas as civilizações que passaram se perguntaram o porque da existência, e assim foram-se criando explicações para as “coisas” do mundo. A partir disso, vê-se que a ciência não pode ser definida apenas como o conhecimento, mas como a produção do conhecimento. Idéias estáticas, que não são atualizadas, que não crescem ou que não estão sendo feitas não podem conter atributos científicos.

Definida a ciência então, como um processo, quando o processo começou?

Obviamente, o termo ciência não foi usado desde o início dos tempos. No entanto, estudos antropológicos indicam que o processo de produção do conhecimento começou desde os “homens das cavernas”, que dependia dos animais que matava para se alimentar. Alguns tinham a crença que o simples fato de representar o animal em desenhos, sendo morto, diminuiria sua força. Dessa forma, foram-se desenvolvendo figuras cada vez mais elaboradas e detalhadas dos animais e seus movimentos.


Desenhos de bisão com flechas no coração, do final do período Paleolítico. Caverna de Maux em Ariège, França, 25000 A.C.

Nos trópicos, onde os dias não eram encurtados nem alongados devido à posição do Sol e a Terra, a forma mais natural de contagem do tempo era observando as fases da lua. Até hoje existem resquícios desses traços na relação entre as palavras lua(em inglês: moon) e mês (em inglês: month, anteriormente escrita como mooneths), e também nas semanas que representam as quatro estações da lua e suas mudanças, totalizando um mês, de 28 dias (semana em inglês é week, que pode ser comparada com a palavra alemã Wechsel = mudança).

Quando o homem começou a habitar regiões de estações mais bem definidas, onde foi possível a plantar, foi necessária a criação de um calendário que indicasse os momentos certos de plantar e colher. Assim, foram observadas relações entre os movimentos das estrelas e do Sol, e consequentemente, das estações do ano. A agricultura foi a primeira ocupação do homem que levou ao acúmulo de conhecimento e à processos de generalização desse conhecimento.

Campos de agricultura necessitavam de ferramentas para o trabalho, sendo desenvolvida assim a tecnologia. A Idade da Pedra passou a ser a Idade dos Metais. A extração de minérios e a produção de metais culminaram no desenvolvimento de conhecimentos específicos. Inundações do rio Nilo forçaram os antigos egípcios a fazerem anualmente uma nova demarcação de terra entre a população. Assim nasceu a geometria (literalmente medida da terra). O sacrifício em nome de divindades, e o estudos dos corpos das vítimas levaram à estudos do corpo humano. Estes processos precederam práticas científicas conhecidas hoje como metalurgia, matemática e anatomia, respectivamente.

Quanto mais complexas foram ficando as sociedades humanas, mais se desenvolveu o conhecimento, surgindo das necessidades de cada época e moldado pelas experiências práticas. Desde as primeiras invenções e descobertas, como o fogo e a roda, o homem vem definindo o que chamamos hoje de ciência, o processo que constrói o saber. Muitos dos  “cientistas” iniciais permanecem desconhecidos na História, mas suas contribuições foram a base sólida para a ciência do presente.

A estrofe abaixo é apresentada como reflexo da realidade de todo cientista, de qualquer época, que desenvolve o conhecimento sabendo que um dia suas idéias serão ultrapassadas ou refinadas.

“Reader, thou that passest by,
As thou art so once was I
As I am so shalt thou be
Wherefore, reader, pray for me”

“Leitor, tu que segues adiante,
Como tu és eu já fui
Como eu sou agora tu serás
Portanto, leitor, reze por mim”

Moral da mensagem: a ciência não pára!

Referência:

SINGER, Charles, “A Short History of Scientific Ideas To 1900”, emitido pela Universidade de Oxford, Oxford, 1972.